Do jornal O Globo, 26 de maio de 2026:
Na primeira infância, período que vai de 0 a 4 anos, os registros de violência sexual cresceram mais de quatro vezes em uma década, indo de 1.671 em 2014 para 7.845 em 2024. Na faixa de 5 a 14 anos, o aumento é de 341%, o que corresponde a um crescimento de 6.594 para 29.135 notificações. Segundo o Atlas da Violência, trata-se do grupo mais vulnerável. O crescimento é menor na última faixa, que vai dos 15 aos 19 anos. Em 2014 foram registrados 1.632 ocorrências do tipo, e, em 2024, 6.869.
— Está aumentando pelo fato das subnotificações estarem diminuindo. Há várias explicações, como a conscientização. Por outro lado, o sistema de saúde tem melhorado nos últimos anos, com treinamento dos servidores. Quando uma criança chega com vestígios de violência sexual, o servidor tem de fazer a notificação, independentemente da família ter dado queixa — diz Daniel Cerqueira, do Ipea, um dos autores do levantamento, que acrescenta — A criança que sofre essa violência a vida toda, que foi estuprada, chega à escola sem condições de aprendizado, com dificuldade de sociabilidade. Essa criança não vai se inserir no mercado de trabalho. É este adolescente que vai ser presa fácil do crime organizado.
(…) Ainda segundo os dados levantados pelos pesquisadores, dois terços das violências contra crianças e adolescentes de 0 a 14 anos ocorrem no local de residência. Para menores de 0 a 4 anos, a autoria da violência não letal é doméstica em 79,9% dos casos.
As cifras obscuras vão se reduzindo, e os números reportados começam a refletir com maior precisão o tamanho do problema da violência sexual contra crianças e adolescentes. O que mais impressiona é a prevalência dessa violência no interior das residências, praticada por membros da família e por pessoas de convívio próximo. Oferecer às crianças e aos adolescentes, de acordo com sua capacidade de compreensão, as ferramentas para entender a inviolabilidade de seus corpos e a necessidade de reportar abusos sexuais cometidos no ambiente doméstico, por meio de educação sexual, é medida que coíbe crimes sexuais e salva vidas.
